quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Sobre a pintura de cenas marítimas, navios e batalhas navais

Nos 150 anos do Museu de Marinha (22 de julho 1863-2013)

Parte III – Saudades do Mar

António Delfim, “Navio Escola Sagres em Lisboa”, 2000, óleo s/tela - 1º Prémio de Pintura da Academia de Marinha em 2000

A Marinha portuguesa entrou no século XX com grande otimismo. A marinha mercante navegava “de vento em popa”, após a criação das grandes companhias de navegação no século XIX e a marinha de guerra sonhava com uma esquadra oceânica. Para dar corpo a essa “visão estratégica”, foram construídos e adquiridos novos navios e o primeiro submarino chegou a Portugal em 1913. Não houve tempo para mais. Pressionado pela situação internacional, o governo liderado por Afonso Costa mandou apresar 70 navios alemães que se encontravam em águas territoriais portuguesas, ousadia que levou a Alemanha a declarar guerra a Portugal em março de 1916. No entanto, a Marinha portuguesa não estava à altura das suas congéneres aliadas e perdeu prestígio para a aviação militar, a maravilha da época – que, curiosamente, ficou sob a alçada da Marinha até 1952.

Relegada para terceiro plano nos principais conflitos internacionais do século XX e na guerra colonial, apesar da sua participação meritória em inúmeras missões, a Marinha envolveu-se fortemente nas mais diversas áreas e atividades relacionadas com o mar, desde a investigação científica e tecnológica à cultura marítima e aos desportos náuticos, com destacada participação nos grandes eventos nacionais e internacionais que marcaram a história do século XX português – da Exposição Colonial no Palácio de Cristal do Porto em 1934 à Expo’98, passando pela Exposição Marítima do Norte de Portugal em 1939, Exposição do Mundo Português em Lisboa em 1940, XVII Exposição Europeia de Arte em 1983 e as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, de 1986 a 2002 – sem esquecer a Europália’91, na Bélgica, em que Portugal foi o país-tema. Um século agitado por variadas paixões “caseiras”, desde a paixão colonial à paixão pela educação – mas, como diz o ditado popular, “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.

As artes nacionais refletiram naturalmente esta agitação política e cultural, contribuindo com obras encomendadas ou espontaneamente, em iniciativas paralelas – sobretudo exposições individuais e coletivas. Pintores, desenhadores e aguarelistas como Souza Pinto, João Vaz, Roque Gameiro, Fausto Sampaio, Sousa Lopes, Cândido Teles, João Carlos Celestino Gomes, Eduardo Malta, Alberto Sousa, Alfredo de Morais, Artur Guimarães ou Telmo Gomes (1), entre outros, já vinham tomando o simples barco de pesca como assunto principal nos quadros, destacando globalmente as sua características formais (casco, tipo de vela) e colorido distintivo. Grande parte da sua obra pode ser encontrada nos vários (e excelentes) Museus nacionais ou municipais sobre o mar e as atividades marítimas (2). Nem todos foram, porém, dedicados pintores do género – como o setubalense João Vaz ou o ílhavo Cândido Teles – e a pintura de paisagens marinhas com barcos e navios ficou muito longe do que se fazia na Europa.

Entre os grandes pintores europeus de marinha e navios, destaca-se o francês Albert Brenet (1903-2005), nomeado Pintor da Marinha Nacional  francesa em 1936, Pintor do Ar (Força Aérea) em 1936 e pintor do Exército (1959). Outros grandes pintores franceses de marinhas no século XX foram  Marin-Marie (1901-1987) e Roger Chapelet (1903-1995). O Museu de Marinha português dispõe de uma pintura de Chapelet representando a “Fragata D. Fernando II e Glória”, a última nau da Índia e o último navio de guerra da Marinha portuguesa a navegar exclusivamente à vela.

O “Albert Brenet português” é o pintor e aguarelista Alberto Cutileiro (1915-2003), antigo Diretor do Museu de Marinha e autor de uma obra notável, de investigação e ilustração históricas. Algumas das suas principais pinturas a óleo e aguarelas encontram-se expostas no Museu de Marinha e foram reproduzidas em vários livros de referência, na Revista da Armada e outras publicações das Forças Armadas Portuguesas. Na verdade, destacou-se também na investigação e inventariação de uniformes militares, publicando a obra em 3 volumes “O Uniforme Militar na Armada – Três Séculos de História” (1983), profusamente ilustrado com aguarelas da sua autoria.

A valorização da cultura popular trazida pelo 25 de abril de 1974 (3) suscitou um crescente interesse pelas atividades tradicionais ligadas ao mar e aos rios portugueses, que já eram estudadas devotadamente pelo Arquiteto Octávio Lixa Filgueiras  (Foz do Douro, 1922-1996), entre outros (4). Estes esforços inseriam-se num movimento mais alargado de valorização, estudo e promoção do Património Cultural nacional, mais além dos tipicismos provinciais propostos pelo Estado Novo (casas e trajes típicos), com boa resposta dos ilustradores. A nova abordagem, por ser mais científica, suscitou um realismo mais preciso e direcionado da representação, um realismo documental com preocupações etnográficas – do qual Fernando Galhano (Porto, 1904-1995) é um bom exemplo, ilustrando sistematicamente a investigação de Ernesto Veiga de Oliveira. Galhano foi um elemento fundamental no grupo criado em 1947 por Veiga de Oliveira para renovar os estudos etnográficos em Portugal.

As preocupações neorrealistas de muitos artistas já haviam chamado à tela (na pintura mas também no cinema) a vida difícil dos pescadores nas praias e portos portugueses ou enfrentando tempestades no mar alto abraçando apenas a boia da devoção religiosa, ou quase perdidos nas brumas e águas geladas da Terra Nova, onde pescavam o bacalhau à linha a bordo de pequenas embarcações individuais, os “dóris”. São verdadeiros tesouros do cinema nacional filmes como “Douro, Faina Fluvial” (Manuel de Oliveira, 1931), “Ala Arriba!” (Leitão de Barros, 1942) ou “Nazaré” (Manuel de Guimarães, 1952) – que podem ser vistos acionando os respetivos links (5) – mas foram inúmeros os pintores que escolheram como tema a condição social do pescador português: Souza Pinto, Júlio Pomar, Avelino Cunhal, Augusto Gomes, Tomás de Melo, Guilherme Camarinha, entre outros.

A melhoria das condições económicas, a invasão das praias pelo turismo de verão e a caudalosa legislação comunitária que penalizou fortemente as atividades marítimas tradicionais, reduziram a pesca artesanal e as atividades agromarítimas a curiosidades turísticas, postal ilustrado e a cores de um país folclórico que na realidade já não existe. E seguindo a moda do postal ilustrado, a pintura imita a fotografia – como acontece (e bem) com as pinturas fotorrealistas de António Delfim. Nem por acaso, foi-lhe atribuído em 2000 o 1º Prémio de Pintura da Academia de Marinha – o braço cultural da Marinha Portuguesa.

Apesar das questões que possam ser colocadas relativamente às preocupações realistas da representação de navios e barcos após o aparecimento da fotografia a cores e dos milagrosos programas e aplicações informáticas para otimizar a informação visual nas fotografias digitais, acresce sublinhar a estreita ligação entre a investigação histórica – no caso, no âmbito da arqueologia naval – e o trabalho do ilustrador/artista. Se esse inventário visual, essa recolha documental mobilizando o desenho e a pintura, fazia sentido antes do aparecimento da fotografia, por serem então os únicos meios para recolher imagens da realidade envolvente, continua hoje a fazer sentido pois a fotografia existe mas os navios desapareceram. Muitas Câmaras Municipais, Museus e Associações têm promovido a recuperação e/ou a construção de réplicas de embarcações tradicionais (6), a criação de pequenos museus e núcleos museológicos, a realização de encontros temáticos, demonstrações náuticas e reconstituições históricas. Todos os esforços serão poucos para preservar o que ficou à nossa guarda, a mensagem que herdámos e que deve necessariamente passar aos nossos filhos e netos. Se mais não for, para sabermos o que se perdeu com o que ganhámos. Ou vice-versa.
SR
(Parte I - "Sobre a Pintura de Cenas Marítimas..."; Parte II - "Veleiros e Vapores"

João Vaz, Praia de Espinho, óleo s/tela

José Júlio de Souza Pinto, A Vinda dos Barcos, 1891, óleo s/tela

Guilherme Camarinha, Faina Fluvial no Douro, 1962, óleo s/tela

Alberto Sousa, Praia com Barco de Pescadores, 1953, aguarela

Cândido Teles, A Arte da Xávega, 1984, pintura sobre tela

Alberto Cutileiro, “Nau Frol de la Mar “ do séc. XVI, 1960, óleo s/tela, Messe de Oficiais de Cascais. A “Frol de la Mar” (Flor do Mar) era na realidade um galeão. Foi utilizada na carreira da Índia e nas conquistas de Goa e Malaca. Naufragou em 1511.

Roque Gameiro, Praia de Vieira de Leiria, aguarela

Humberto Santos, Barco junto da Ponte de Requeixo, arte digital. A ponte de Requeixo situa-se na confluência do rio Cértima com o rio Águeda

António Delfim, “Limpando o Barco”, óleo s/tela

Notas:

(1)-O arquiteto Telmo Gomes realizou várias exposições de pintura e ilustrou alguns livros sobre navios e navegação, com destaque para a sua obra “Navios Portugueses - Séculos XIV a XIX”, Edições Inapa, 1995.

(2)-Com destaque para o Museu de Marinha, que celebra 150 anos, e para o Museu Marítimo de Ílhavo, fundado em 1937. Entre os museus municipais, a título de exemplo, refiram-se o Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, fundado por Santos Graça em 1937, o Museu Dr. Joaquim Manso na Nazaré, o Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal e o Museu Etnográfico Regional de Faro.

(3)-O sucesso da Revolução deve-se à coragem e determinação dos Capitães de Abril mas, sobretudo, ao enorme apoio popular que se fez sentir nas ruas e inspirou a aliança Povo-MFA. Esta aliança informal, tida pelos militares como compromisso de honra e pelos partidos progressistas como base programática, consolidou-se desde logo com a satisfação das principais aspirações das classes desfavorecidas, através da melhoria das condições de vida, campanhas de alfabetização e diversas iniciativas de valorização e promoção da cultura popular.

(4)-A. Cabral Neves, A. Gomes da Rocha Madahil, António Santos Graça, D. José de Castro, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Luís de Magalhães, Manuel Silva, Vicente de Almeida d’Eça,…

 (5)-"Douro, Faina Fluvial" (1931); “Ala Arriba!" (1942); “Nazaré” (1952). Mas também o famoso “Maria do Mar” (Leitão de Barros, 1930), a primeira docficção portuguesa, ainda no tempo do cinema mudo, “Quando o Mar Galgou a Terra” (Henrique Campos, 1954) filmado na Ilha de São Miguel, Açores, e "Avieiros" (Ricardo Costa, 1975).

(6)-Por exemplo, a Junta de Freguesia de Lanheses (Barco d’Água Acima do Rio Lima, 2010), o Clube Naval Povoense e a CM da Póvoa de Varzim (Lancha poveira, 1991), Núcleo Museológico de Vila Chã, Vila do Conde (2 Catraias poveiras, 2011 e 2012), CM Nazaré (Barca do Galeão, Neta ou Barco da Xávega, Barco do Candil), CM do Montijo (Varino, 1981), CM do Barreiro (Varino), CM Seixal (Fragata), CM Sesimbra/Clube Naval de Sesimbra (Barca "Santiago", 1998), CM Alcácer do Sal e Reserva Natural do Estuário do Sado (3 Galeões do Sal); CM Olhão (Caíque “Bom sucesso”, 2002). Em muitos portos, inclusive na Madeira e Açores, várias empresas tên recuperado antigas embarcações de pesca e transporte para fins turísticos.

1 comentário:

Jose Ruivo disse...

Como modelista que sou, sinto uma enorme pena, que um País que deu novos mundos ao mundo,
não tenha no seu acervo, a descrição e plantas ou planos de seus navios, apesar de exaustivas
pesquisas sobre este assunto, Telmo Gomes, oferece a designação de muitos, mas apenas
esboços.
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Modelismo naval estático

cordialmente
Jose ruivo